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A noite nunca mais acabava, os olhos nem se chegaram a fechar e eu sentia o mundo todo sobre os meus ombros. Os gritos incessantes espalhavam-se pelas paredes da casa. Aquilo um dia acabava, todos sabiamos. Morte ou divorcio. Era duro pensar assim, eu sei, mas não havia outra maneira de o fazer. Quando finalmente o Sol rompeu o céu turquesa, levantei-me e fingi, mais uma vez, que tinha sido uma noite normal. Ele ja tinha saido, claro, e ela estava despedaçada num canto da cozinha a beber cha. Dei-lhe um leve beijo e levou-me a escola. Até agora, a rotina não se tinha alterado em nada. Pensava eu que o pior ja tinha passado - não podia estar mais enganada.
Aguentei a primeira aula a custo e depois esgueirei-me da escola, e la estava ele todo senhor de si. Calças pretas, t-shirt branca e casaco de cabedal. Olhou para mim e sorriu, um sorriso perfeito e desalinhado e abriu os braços. Foi uma imagem que nunca, jamais esqueci.
Aquela era sempre a melhor parte do dia. Olhei para ele, estava agitado, havia uma ruga permanente entre os olhos frios cor do céu e tinha rapado o cabelo naquela manhã. Caminhamos em silencio até la. Estava frio, tudo.
Tinha ficado muito reticente com o que se tinha passado. Agora fazia tudo mais sentido, as suas saidas, mudanças de humor. Mas, que lindo que ele era. Nunca me passou pela cabeça deixa-lo. Como se isso fosse hipotese, não era, de todo! Que faria eu sem ele? Como se outro rapaz fosse olhar para mim. Eramos um belo par. Até, até deixarmos de ser.